quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sabes...?




Sabes porque me assusta a morte?
Porque deixaste pedaços de ti dispersos, nas gavetas, nos papéis, nas cartas guardadas, nos bonecos que decoram a casa, nos barros que trazes da infância, nos postais com letras várias e emoções antigas, nos santos bordados a renda com estórias por contar.

Como um puzzle a que faltam peças, todos são bocados incompletos de ti. Não pertencem aos que ficam, não lhes dizem da tua vida mais do que a imagem obscura do silêncio que transportam.

Não são também facilmente descartáveis, são, antes, um problema que te sobrevive, uma outra morte desconfortada e adiada até ao amanhecer de um outro dia que se quer limpo.



segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sê inteiro






Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
...

Miguel Torga, Diário XIII




Vizinhos


terça-feira, 30 de maio de 2017

O cravo




A representação Kitsch do 25 de Abril, numa gigantesca pomba bem intencionada.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Encontro com a Nadia

Esta pequenita mostrava-me, com orgulho, os desenhos feitos naquele caderno preto. Eram bolas e riscos. Garatujou rapidamente e com decisão o que afirmou ser o meu nome, numa demonstração clara de competência no domínio da escrita.

Pediu-me para fazer um desenho.
Tal como no conto do Principezinho, eu só sei fazer: uma cara de rapariga jovem e bonita, de preferência de frente, e uma boneca de grandes bochechas e sardenta.

Com voz segura e convencida disse-me: "Desenhas bem!" (nunca tal ouvira!) e demos de seguida nome às bonecas: uma seria eu em tempos idos de primavera, outra a Nadia acabadinha de crescer. 

domingo, 14 de maio de 2017

A Mercedes, a Anita e o Tobias


A Mercedes, a Anita



e o Tobias ...


recordando uma frase lida numa parede:



"Alice, emprestas-me o País das Maravilhas?"




               

domingo, 9 de abril de 2017

Primavera







O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.




Manuel de Barros "O livro sobre nada"




sábado, 25 de março de 2017

Carlos e a poesia



O Carlos, com quatro anos,  afirmava querer vir a ser "desenhista", "escrevista" ou mágico, este último depressa emendado para a nobre profissão de "duende".

Passados alguns anos, seis para ser exacta, confirma-se a veia desenhista, actualmente com incursões pela banda desenhada, e inicia-se na escrita com umas aventuras líricas de sabor poético. Vejamos:

No papel novinho em folha
Desenhei uma papoila
Subitamente sem hesitar
Saiu do papel a voar
Pousou na terra a cantar
Toda feliz a falar
Sem parar de sorrir

E assim, cruzando o desenhista com o escrevista, se cumpre a magia naquela papoila que voa.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Adeus! Adeus!


Devia morrer-se de outra maneira. Transformando-nos em fumo, por exemplo. Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir-se de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do grande "disfazer" : - Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às nove horas. Traje de passeio.
E então, solenemente, com passos de reter o tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mão quentes, ternura de calafrios "Adeus! Adeus!"

                                                                                                               José Gomes Ferreira

Chefchaouene


Éramos dois em Chefchaouene frente a uma nuvem rosa. Tão só quanto eu, a tua dança convocava o espírito dos céus. Haveria música? Eu tocava-a à noitinha, quando os sapos invadiam a terra e tinham a humidade dos verdes e dos castanhos encantados. A música era real? Era breve? Eram sons do encontro entre o silêncio e o meu corpo? Que música era essa que embalava os meus sentidos?

Fomos duas pessoas a saber beber chá de rosa e menta em Chefchaouene.
                                                                                                                                     


quarta-feira, 8 de março de 2017

Anita, a burra


Em Marrocos via-os pequenos, roliços, de pelo longo, como brinquedos em mãos adultas. Voltámos várias vezes àquela feira onde se vendiam e compravam após grandes discussões quanto ao seu preço, à qualidade e à resistência do animal. Tinham, normalmente, um ar doce e triste, como quem sabe que só lhes resta um futuro difícil de trabalhos pesados.

Em Alcochete, na reserva, encontrei o Ernesto, um burro português que comia flores e, por via dos seus excessos, fora separado das fêmeas. Não sei se o Ernesto foi até ao Alentejo...
...mas numa quinta de sobreiros, flores e pequenas lagoas, onde a terra é religião, uma burra escolheu dar à luz no dia 26 de Fevereiro uma cria que foi chamada de Anita.
Sabem porquê?

Em honra da minha amiga Ana que, ao fazer anos, nunca recebera uma tão merecida e bela prenda.

Há aniversários felizes e burros com sorte.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Os meus cantos




Escreve-se  nas folhas verdes de um cato, no tronco de um castanheiro, numa parede branca, ou num conjunto de figuras que se aninham num canto daquela sala.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Marvila


Ao dobrar uma curva, passamos por baixo de um arco antigo, feito de pedras e musgo, que se abre para um conjunto de ruas estreitas e cheias de cor. Talvez um antigo bairro operário, onde os sobreviventes de uma época e os abandonados de outra, se encontraram. Como aquela roupa estendida que atravessa a rua e liga as duas janelas.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Asas




Eu tinha umas asas brancas... quem não se lembra? Das asas ou do poema? De tudo!

a caminho do céu




domingo, 22 de janeiro de 2017

Stop the Time


Partiram os dois, com pouco intervalo de tempo.
Da minha mãe, guardo as suas mãos onde nasciam flores, pássaros, gentes e cores, figuras pintadas a óleo ou em porcelana, que povoam a casa e hão-de permanecer como realidades concretas. Estas mãos, versáteis,capazes de criar beleza e admiração, de lhe preservar a memória, estranhamente, não sabiam fazer a festa.
Lembro como, em pequena, desejava ter febre para sentir a sua mão gelada na testa. Ainda hoje faço o mesmo ao meu filho, na esperança de lhe dar prazer.
A minha rua perdeu brilho, tornou-se mais vulgar, sem a sua presença.

Do segundo, lembro o privilégio de o ter como amigo, da satisfação de umas palavras trocadas na entrada da sua casa, do seu humor mesmo quando a vida já não tinha graça.
O meu prédio está mais vazio. Não me apetece parar naquele patamar.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Frase do dia



O Carlos fez 10 anos e sente-se, como diz, um "pré adolescente". É mais contido nas palavras, nas opiniões, porque muitos assuntos que lhe interessam já não são do meu domínio. Os nossos universos começam a ficar limitados por vivências diferentes: "poderes" e monstros que me são estranhos, filmes que não vejo, músicas que não conheço, tecnologias que ignoro. Um outro processo mágico!

Mais pequeno, eu ainda  "pescava" nas palavras as descobertas que fazia e como, depois, as transformava em conhecimento. Frases que faziam a minha delícia e o meu espanto.

 Hoje regresso ao espanto e registo esta resposta a uma qualquer provocação que já não recordo:

"Tenho de me livrar do passado para poder pensar o futuro"
Upss!

Isto é dito entre a ironia e uma certa dose de gravidade, como quem projeta nas palavras uma reflexão já elaborada anteriormente.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O pai, a Beatriz e a princesa Elsa


Francisca vivera na aldeia, filha de trabalhadores agrícolas. Conta-me que, chegado o mês de Dezembro, o pinheiro de natal era decorado com papéis de prata, coleccionados ao longo dos anos, retirados dos chocolates e depois alisados e guardados entre as folhas de um livro; as prendas do menino jesus resumiam-se a  seis nozes, um pai natal e um chapéu de chuva de chocolate. Todos os anos era assim, mandava a tradição e a condição económica da família.
Na manhã de confirmar os doces no sapatinho, a alegria repetia-se num reencontro anualmente desejado, fazendo de cada ano um ano novo.

Pergunto-me, então, se ser feliz é não ter expectativas. Uma voz antiga disse-mo, e não era natal!

sábado, 17 de dezembro de 2016

O medo



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos,
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas,


"Congresso Internacional do Medo" de Carlos Drumond de Andrade






sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A árvore e a casa


O verde agarrou a casa. Sobe-lhe pelas paredes, entra pelas janelas, discute o espaço e cobre as ruínas.  A vida e a morte num abraço de quadro a óleo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Cores de Outono


Se um dia abandonar o bom senso e me deixar enlouquecer pelo sol. hei-de falar com as árvores e aninhar-me num dos seus ramos, como um pássaro. 

Medronhos em Monsanto


Nasce de uma flor branca e decorativa, transforma-se numa baga verde, depois amarela, por fim amadurece num vermelho forte que tinge o chão de Novembro e embriaga os olhos de tentações de açúcar. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Eu e os meus objetos



 Um pequeno recanto de figuras compradas com o prazer da descoberta. Cada uma tem a sua história e foi, durante anos, a minha quase inexistente tendência para o coleccionismo.


 Um pormenor de uma romaria minhota, de um barrista - Delfim Manuel - que se desdobra em figuras populares, dando ao barro a leveza da filigrana, e tornando num sorriso aquelas festas dignas de um filme do Kusturica. Foi a oferta que fiz a mim própria no dia em que o trabalho deixou de ser uma obrigação.


 Um alfarrabista saído das mãos e da humildade de um homem chamado José Franco. Era uma oferta, com direito a dedicatória escrita pelo próprio J.F. na traseira do manto.Lembro que procurar uma prenda era para mim um entusiasmo e um desafio. Gostava de encontrar símbolos, imagens e linguagens escondidas, outras dimensões e outras mensagens.A prenda era feita desta procura. Era sempre uma dupla entrega.

 Três figuras. A mulher que abraça a criança, as minhas cantarinhas de barro a subirem-me pelo corpo e pela memória dos tempos, um camelo, imagem de um deserto onde fui (como diria o outro) muito feliz, e de uma ceramista - Bernardete Gomes - que trabalha o barro como quem pinta a espátula.


Pormenor do meu amigo camelo.


Nas feiras de artesanato espero sempre encontrá-los. É um casal de jovens, bonitos por inteiro, o que se traduz também num ar de gente doce. Trazem muitos e variados bonecos, monstrinhos, gravetos em forma de qualquer coisa entre o humano e o vegetal. Benamai Sá Pinto não sei se é o seu nome de "guerra". Este boneco de madeira com asas de anjo ou borboleta foi, pelo tamanho e características, uma das suas primeiras criações. Tenho outros, uma crescente família délfica, que espanta os meus fantasmas nas várias janelas da casa. Comprei-o pouco antes de nascer o Carlos que, conforme crescia, se media com aquele ser de asas abertas à entrada da sala.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Na praia




Muito cedo, hoje, ontem, numa terça feira passada, em 2005 ou 2013, os meus olhos aprenderam a secura dos desertos. É uma doença estranha, já que não se legitima por causas ou razões observáveis. É  antes  uma falta na mais profunda raiz de mim, um silêncio amargo do meu corpo que recusa o fresco da água.

Sinto ainda, no pequeno gesto ou no insignificante acontecer, a ameaça de uma lágrima que não chega a cair, mas que me diz da alegria de estar viva.

Guardo, então, num velho cofre a palavra emoção com um medo enorme de perdê-la.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Verão de S.Martinho


Hoje houve um belo dia de sol e, à noite, uma super lua só visível de novo, dizem, daqui a 16 anos. 
Que mais desejar num mês de Novembro?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016