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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O grão de areia

Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos na pequenez imponderável, na cintilação do sal e oiro que nos desgasta os olhos. O inventor de jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:
"O que lhe falta é um microscópio. Arranje-o depressa, transforme os grãos imperceptiveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados cientificos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem."

                                                                         Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, 2º vol. "Dunas"

O cosmos

Era Setembro e eu tinha 17 anos. Cruzava-se em mim a criança que me abandonava e a mulher que, timidamente, começava a respirar em cada poro do meu corpo.
Naquela casa, conviviam os espíritos da minha avó e da minha tia materna. Amor e Austeridade, histórias de família aliadas ao cheiro dos santos que a habitavam.

Naquele ano eu ainda recitava ao deitar:  “Senhor, não sou digna de que entreis na minha morada, mas dizei uma só palavra e a minha alma será salva”.
O sagrado na sua versão mais crua e castradora, Metáfora de códigos adultos, que reforçavam silêncios e calavam o corpo que nascia e crescia numa única manhã.

Era cedo demais e não entendi as palavras por dizer.

Nesse mês, acabava o Verão.

A grande duna