quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Eu e os Outros 7



A escada rangia e tinha a passadeira solta “cuidado, menina, não caia!”.
As arcas de cereais escondiam toalhas de linho branco a cheirar a sabão e água da mina. Traziam o tempo das mulheres nos bordados.
O poço tinha flores em ramos pequeninos que espreitavam as rugas das pedras molhadas.
Bebia a água do balde, a saber a ferro, enquanto afastava as folhas da macieira que tombavam na superfície líquida.
Havia um anjo nos quartos de longas asas brancas “anjo da guarda, minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia…”.Esse anjo, soube-o mais tarde, era a minha avó Hermínia.
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Eu e os Outros 6


Era um triângulo de terra verde, tinha uma árvore de que não lembro o nome…
Eu usava um chapéu de palha largo e sabia-me o corpo a terra fresca.
Hoje procuro os carreiros entre as casas. O tanque desapareceu com o seu telhado de musgo e o poço onde se apanhavam rãs.
Passaram-se tantos anos…

Eu e os Outros 5


O verde conservava, ainda, a ingenuidade das minhas cartas.
Era o tempo das laranjas azedas…

Eu e os Outros 4

Havia dióspiros no largo da praça. E livros de segredos adultos, nas prateleiras… E o Vasco Mourisca que me perguntava se eu teria idade para perceber o que lia...

Eu e os Outros 3



Tenho olhos, braços, pernas, ventre para amar a terra húmida e virgem. A terra que nalgum ponto, entre um rio vegetal e choupos sofridos, me espera.

Eu e os Outros 2



soluça longe nos trigais
a minha infância,
cheira a madressilva e
a choupos sobre o rio.

... aprender a viver
até que o arrepio da terra
me fecunde.

Eu e os Outros 1


O carro andava ao passo sonolento das lágrimas. O homem ao lado, caminhando, falava para a janela do condutor. A conversa era acompanhada de risos breves e falava de não sei bem o quê que tinha a ver com cerveja, talvez uma gorgeta… “agora às 11 há outro”, lembro-me que dizia num riso de profissional satisfeito, enquanto continuava contando a história daquela terra que não comia os seus mortos…
No carro fúnebre, atrás, o silêncio acompanhava o meu pai.
As palavras caíam, não chegavam a ser ofensa…a cara alegre do coveiro coexistia pacificamente na manhã dos outros.
Os rituais da morte! O choro, os abraços e a terra que sobre o caixão tomba num ruído seco. A pressa da missão cumprida. As flores são abandonadas a esmo, lançadas, atiradas ao encontro da sepultura. Não há uma mão amiga a transformar ou afagar o ritual…
Estarão secas, nesta hora. Ninguém regressou ao lugar onde o meu pai ainda existe no silêncio da morte.Talvez só o coveiro, rindo…

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

quinta-feira, 8 de novembro de 2007