quarta-feira, 15 de abril de 2015

O tempo

Há demasiado sofrimento neste planeta. Tão estupidamente avassalador, que julgo vir a gerar limites bloqueadores das emoções. Creio que, nesta fase, o corpo começa a pensar com o estômago, com o frio, com o dedo do pé ...ou com a indiferença total de querer morrer para salvar o outro.

Penso nas histórias de horror que a televisão mostra entre duas partidas de futebol.  Vejo, então, estarmos tão anestesiados que não sabemos mais chorar. Somos uma nova espécie de medusas gelatinosas, não damos à praia mas já estamos mortos.

Ultimamente sonho também que morro. E todas as noites retiro mais algum tempo à vida. Faço cálculos: meses, alguns anos (os últimos passaram tão depressa! durmo? estou acordada?) e um poço negro, pesado, vazio, aloja-se-me no peito e angustia-me.
..
Sou pequenina neste sonho, é inverno e procuro imaginar a primavera para forçar a lágrima. Recusa-se, então busco a memória da minha avó Hermínia, as maçãs sumarentas do poço, o rasto tão fantasioso dos sonhos da adolescência, as cartas trocadas e o tempo ingénuo das margaridas. Não crio, não projecto, aguardo...
Estou perto do choro, mas ainda não sou capaz!


sexta-feira, 27 de março de 2015

Alegoria da caverna

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que nasci,
distância imutável da minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me,
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou,
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim.              

José Almada Negreiros "A sombra sou eu"


terça-feira, 10 de março de 2015

Travessia


Aos poucos desaparecem da nossa vida pessoas a quem amámos, de quem fomos amigas ou que simplesmente se cruzaram connosco.

Algumas imagino reencontrar quando observo, à noite, uma estrela no céu capaz de rir.  

Outras partem simplesmente, deixando atrás de si um rasto de silêncio e desconforto. Espero, com o tempo, ouvir também o seu riso novo a encher o firmamento.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Legitimidade vs representação

Tsipras acordou os sonhos dos gregos,  devolveu-lhes o orgulho de ser gente. Estremeceu a linguagem, lembrou anos antigos onde o discurso tinha o dom de acrescentar emoção ao governo da cidade.

Conta-se que um pequeno rato pode assustar o elefante...mesmo que por aí fiquemos!

E de utópico a radical de esquerda, todos os nomes são um elogio  face à vergonhosa representação  da "realidade"  portuguesa.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ameijoa do Tejo


Chegam em grandes filas à hora da maré encher, carregados de sacos e cansaços. Respondem, assim, ao desemprego e à austeridade .
Vistos de longe são pequenos pontos vergados sobre as areias e a lama do rio. Parecem pássaros, em busca de comida, ponteando a paisagem do Tejo.

A distância, como sempre, suaviza a imagem e empresta-lhe o lirismo que a realidade nega.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Caixa de correio





Meu amor na despedida
Nem uma fala me deu
Deitou os olhos ao chão
Ficou a chorar mais eu.
Demos as mãos na certeza
De que as dávamos amando,
mas, ai! aquela tristeza
Que há sempre neste "até quando?"
....


....
                              (das Canções de António Botto)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Van Gogh


Um homem e uma mulher. Dois gráficos.
A distância, espaço tempo, por dentro, adentro de mim.
Parede, muro branco, regresso onde me perco, por dentro, só dentro de mim.
A música, sentimento entre a palavra e o silêncio, por dentro, de dentro do tempo.
Dois gráficos, dois espaços, dois tempos, por dentro da casa, da parede, do muro, por dentro  de dentro.
Movimento, momento, soluço e grito, de dentro, por dentro de mim.
O nada por nada dito, por dentro, de dentro, no encontro de ti.
Van Gogh, seara de vento, por dentro, adentro de mim.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Ao pôr do sol




Às vezes o amor recusa-se a escrever, como a caneta que eu, agora, pousei.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Ernesto e os malmequeres



Voltámos a encontrar o Ernesto. Sozinho, de novo, o que leva a crer que continua a não poder ver uma burra de saias. Mas para minha alegria, o Ernesto insiste em perder-se por um ramo de malmequeres...


Penso que o Ernesto, para além de comer flores,  lê romances de amor e faz poesia nas horas vagas.


Carlos e a lezíria


Nesse dia o Carlos iria estar com o "melhor dos meus maiores amigos, o Frederico", não havia animal que o distraísse, nem flores que o chamassem. Resolveu dormir na traseira do carro e, com um gesto de mão alçada, dizer-me que o deixasse em paz.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Maria


            Escute, 
            conhece o Zé Sapateiro?
            vim pr´aqui há 20 anos
            não tomava nada pr´acalmar
                  ...
            ao pé da quinta, com criação,
            campos verdes, queijo fresco,,,

            Escute,
            e a Fernanda do nervoso?
            é do seu tempo...
            tenho lá 3 relógios a arranjar
            meu, do meu marido e do meu filho...
            esta cidade é que mo estraga!
            dantes,
            era o tempo do tamanho da loucura.
            o meu homem e eu, dias grandes,
            a fruta madura à mão solta!

            Escute,
            e o ti Zé Broas? não conhece?
            onde mora? não, não é porque queira saber,
            se vivesse ao pé de mim, podíamos conhecer-nos ...
            já estou habituada, agora só passo...
            estou de passagem!
            venho aqui buscar comprimidos
            sabe, quero dormir, 
            há tanto barulho nesta cidade...

           O sol vermelho lembra-me dos amigos, 
           da sardinha dividida
           no pão da tarde!
           falam pr´aí de esperança.
           estou velha e triste
           precisada de acreditar...

                                                     Escute,
                                                     mas...onde mora?
                                                     eu chamo-me Maria!
M.M.

domingo, 7 de dezembro de 2014

A propósito dos poetas

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco de poeta,
os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso os poetas telefonam muitas vezes.
Querem falar de artigos de jornal, fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham.

Passam entre as gotas da chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.

                                                                                                      José Luís Peixoto in Gaveta de Papéis

domingo, 30 de novembro de 2014

Minha ou tua?




Um dia perguntamos: esta é minha, ou é tua?

O que se ganha e o que se perde, são contas ainda por fazer!

Os amigos e o Tejo




Passear alivia a dor


O homem passeava o cavalo doente pelos caminhos da reserva, enquanto aguardava o doutor dos bichos.

Passear alivia a dor, dizia, referindo a (des)propósito que ambos vinham do mesmo país e estavam sós.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Kanto




Carta a uma amiga (ano 2010)

Por enquanto o meu Carlos pertence ao reino dos elfos, das fadas, das coisas que existem porque só nós as vimos. Não faz birras, não empurra os outros no escorrega, ri facilmente, fala que se desunha, diz "paboíces", aprendeu o valor do diminutivo e sai-se com declarações como "hoje quero dormir com a minha Guidinha", chama-me "pirilampinho" ou faz-me festas quando acorda enquanto me diz "Guida, já acudámos!" . Nele, revejo o tempo que não passei com o meu filho, os gestos que perdi, as falas que não recordo, e vingo esse buraco negro que ainda me dói...


domingo, 16 de novembro de 2014

Cais do Tejo


O mesmo Tejo em tons mais carregados. 

Gosto da lua, naquele canto, referência de um ponto onde os olhares se cruzam.
Está cheia, grávida de amores e medos.

  

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Kanto do Tejo


Esta é a imagem que guardo da Dinamarca: uma breve paragem junto a uma elevação que, transposta, oferecia a imagem serena de um lago de águas paradas. Surgindo não sei de onde, cruza-o uma canoa remada por duas mulheres tão silenciosas como as águas, só deixando atrás de si um sulco desenhado na paisagem. Apareceram, cruzaram o tempo e o silêncio, e desapareceram como deusas de antigos mundos.

A mesma tranquilidade sente-se, às vezes, quando o Tejo e Lisboa são vistos da margem esquerda e a uma certa hora.

sábado, 1 de novembro de 2014

sábado, 25 de outubro de 2014

As aparências iludem




A notícia vinha hoje no jornal. Na sequência de um infeliz encontro com uma espécie mortífera de cogumelos, alguém, que se dizia profundo conhecedor da sua natureza, não mais poderá aprender com o erro cometido.

Há viagens sem retorno.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Chegada do Outono


Encontros no cais






O que sente um macho quando encontra esta fêmea?
O que sentirá esta fêmea quando se vir ao espelho?

O que passa pela cabeça da dona desta fêmea?
O que pensa e sente a gente que se cruza com esta dona?

Mas os grandes protagonistas são aqueles dois que, a preto e branco e sem maquilhagem, se abraçam no cais das colunas.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ode Marítima

.
Ah! todo o cais é uma saudade de pedra!
....

Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas.
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!...

                                                  excerto da Ode Marítima de Álvaro de Campos 


Diogo Infante (teatro S. Luís) não disse ou declamou o poema, interpretou a personagem do desespero e do delírio em Álvaro de Campos. Esmagou-nos!

Rasgou todos os gritos que, ao longo dos anos, vamos abandonando em papéis soltos, agendas ou livros brancos que ninguém lerá .

E o nosso rio é tão pequeno, face aos oceanos que nos espreitam.

domingo, 5 de outubro de 2014

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Os meus anos


... lembro aquele pedido do Carlos quando entrava no meu carro "G... põe a canção do amor!".
Há muito tempo que não repete o pedido. Perguntei-lhe se não a queria ouvir de novo, ao que me respondeu:

- Não, já não gosto de canções de amor!
    porquê ? perguntei eu, assustada...
- Porque me fazem arrepios!, respondeu.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Outras festas



"Quando Frantiska não estava a ver, quando as sombras se alongavam ao fim da tarde, Sors esticava os lábios e via a sua sombra tocar a sombra de Frantiska.
Quando Frantiska encostava os lábios ao vidro para os embaciar e depois escrever o seu nome, Sors, depois dela sair, encostava os lábios  ao mesmo pedaço de vidro embaciado com o nome dela.Um dia o pai entrou na sala quando ele beijava a janela.
Quando Frantiska deixava um pedaço de comida, Sors trincava o bocado que estivera nos lábios de Frantiska. Mastigava beijos, dizia Sors. Engoliu inúmeros ao longo da vida."

Afonso Cruz, "O Pintor debaixo do lava loiças"

Festa Ganchera





Kantos da Terra


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O Amor



" O amor, dizia Sors, é uma casa sem telhado, pois quando olhamos para cima vemos o céu.
Era por isso que Sors se deitava tantas vezes no chão, a olhar para cima. O pai repreendia-o".

Afonso Cruz " O Pintor debaixo do lava loiças"

domingo, 20 de julho de 2014

Novos oráculos


                                           
                                                       Seria bom chorar, como antigamente, por nada!