terça-feira, 23 de agosto de 2016
A filha da moringa de barro
D. Zélia estava grávida, arredondava-se como a lua que a espreitara na noite de fazer filhos. Ficara-lhe, então, a sede. Uma sede de aplacar desertos, que mitigava com a água fresca do cântaro a saber a barro, a cheirar a barro. Era com a terra molhada que a barriga crescia e se fazia gente.
D. Zélia partiu para Lisboa ao arrepio da guerra e no encontro com a revolução que não era a sua. Não trouxe haveres, que o tempo era de medo, mas trazia as luas contadas e uma moringa de barro para saciar a sede.
Com ela, D. Zélia cumpria o gosto e o cheiro da terra de uma forma simples. Raspava o barro,dissolvia-o na água da cidade e encurtava distâncias enquanto a barriga continuava a arredondar.
D. Zélia "comeu" toda a moringa nos meses de fazer nascer... nem toda, porque D. Zélia guardou a asa que ofereceu à filha na hora de ser mulher.
Contava-lhe, então, estórias de saudade e sede de um lugar a que nunca mais voltara.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
O meu Kanto
O tempo abateu-se sobre a casa
Passeiam-lhe nas ruínas os fantasmas da memória.
Um quarto de século...
Minha infância, como era bela, cheia desses caminhos brancos semeados de pedras, mais brancas, subindo, subindo sempre..."
O velho abeto caído, a minha avó Hermínia, ramo em que me agasalhei em noites de sonho e pesadelo.
Eram passos de dança, eu sabia, e não dancei...
1989
Leituras
Ao ritmo dos humores, dos estados de alma (?) e dos amores vividos ou ficcionados, foi crescendo este blogue. Deveria ser lido do primeiro para o último dia da sua escrita. Como a água de um rio que corre. Para trás é passado. Para a frente é já a foz.
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Jardim Museu Thyssen,
Madrid 2016
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
quinta-feira, 28 de julho de 2016
A pequena sereia em Lisboa
A pequena sereia apaixonou-se e perdeu a voz em troca de um lugar na terra dos homens. A bruxa má deu-lhe três dias para ser reconhecida e amada pelo seu príncipe. Vinda da Dinamarca, procura-o agora nas águas do Tejo, talvez no interior de um veleiro de asas abertas ao vento...
A pequena sereia desconhece que sem a magia da palavra e do canto, o amor nunca acontece. Será espuma na praia onde a profecia se irá cumprir
.
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Lisboa 2016,
The Tall ships race
quarta-feira, 20 de julho de 2016
O Sr. Alfredo
Há anos que o Sr. Alfredo resolve os pequenos problemas domésticos. É uma figura tosca, de poucas falas, lento quanto baste e a quem, normalmente, sobram peças depois do trabalho feito. Mas lá vai pregando os pregos, arranjando a máquina da roupa ou o esquentador.
É já da casa e nós gostamos dele.
Em reposta a uma pergunta, e num tom grave (levemente irritante), diz sempre "Você é que sabe!".
Quando há um problema, decerto é " deli ou delé "! E se a torneira ficou torta, desabafa "logo vi que você era muito esquisita!".
Mas hoje o Sr. Alfredo foi mais conversador e informou-me estar muito melhor da memória " lembra-se mais das palavras" e tudo por causa da internet.
Como? O Sr. Alfredo joga, escreve, envia mails, tem um blogue? Não é bem assim, mas usa o Facebook para comunicar com a filha que está nos Açores.
Acrescente-se que o Sr. Alfredo também não tem computador, mas o milagre vai-se fazendo com o telemóvel.
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A.R.C.O,
Madrid 2012
domingo, 10 de julho de 2016
Mãos sujas
O Carlos, depois de lhe mandar lavar as mãos, lambidas pelo cão, diz-me:
"G., as minhas mãos estão sujas de alegria, não percebes?
domingo, 26 de junho de 2016
Reflexões sobre um auto retrato
Agustina Bessa Luís num belo conto chamado “A
mãe do rio” diz : “a única solidão é aquela que não tem passado”.
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FotoEspanha,
Madrid 2016
quarta-feira, 15 de junho de 2016
terça-feira, 24 de maio de 2016
quinta-feira, 12 de maio de 2016
segunda-feira, 9 de maio de 2016
segunda-feira, 2 de maio de 2016
domingo, 17 de abril de 2016
quinta-feira, 14 de abril de 2016
terça-feira, 12 de abril de 2016
Eu e os outros
As pequenas histórias são, também, a nossa maior história. Escrevo mais esta para não esquecer...
Onde eu trabalhava, aparecia diariamente um homem que sofria de uma qualquer deficiência mental que não o impedia de nos prestar pequenos serviços (levar o correio, comprar o jornal...). Era acarinhado por todos e, sabíamos, protegido pelo sindicato que, inclusive, lhe dava dormida num sótão da sede.
Gostava, particularmente, de mim e eu correspondia como podia e sabia.
Passaram-se muitos anos, já eu mudara de trabalho e profissão, já esquecera o nosso homem, quando um antigo colega me veio entregar um poster, tamanho "gigante", com a minha cara quando jovem e ainda "bem parecida".
Explicação dada, o sindicato tinha oferecido, ao meu amigo, na brincadeira, uma reprodução gráfica do meu retrato que este conservara na parede até à hora da morte.
Não me lembro do seu nome e recordo tantos outros que nunca o mereceram.
Uma casa
Há pequenos pedaços de vida, lá atrás, que nos fazem sorrir. A primeira (?) casa que ousei querer comprar, era uma palafita à beira Tejo. Mais tarde foi objecto de uma brincadeira com direito a caricatura e oferecida pela nossa Coqueluxe, em que eu ostentava várias peculiaridades levadas ao exagero: o gosto pelos vestidos indianos, os brincos grandes, os colares, sapatos para várias ocasiões, dois pares de óculos (para os esquecimentos) e muitos isqueiros. Tudo isto e uma palafita.
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2016,
Carrasqueira
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Margaridas
Sonhei que estavas dormindo num campo de margaridas sonhando que me chamavas, que me chamavas baixinho para me deitar contigo num campo de margaridas. No sonho ouvia o meu nome nascendo como uma estrela, como um pássaro cantando.Mas eu não fui, meu amor, que pena! mas eu não podia, porque estava dormindo num campo de margaridas sonhando que te chamava que te chamava baixinho e que em meu sonho chegavas, que te deitavas comigo e me abraçavas macia num campo de margaridas.
Thiago de Mello
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Abril 2016,
Caneiras,
Santarém
quinta-feira, 24 de março de 2016
sábado, 24 de outubro de 2015
"Difícil fotografar o silêncio"
Regresso ao blog que não consigo encerrar. Criámos "laços" difíceis de partir.
Um blog transforma-se, com o tempo, num encontro connosco, e é penoso acordar só....continuará, então, a existir para pequenos textos que roubo à gaveta, ao silêncio dos dias ou ao rasgar do tempo.
Kantodafotografia será um novo lugar onde procuro mostrar (a algum extraterrestre que espreite núvens), as imagens que guardo na memória, sempre mais fiel, da minha máquina.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Despedida
“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei/ lá tenho a mulher que eu quero/ na cama que escolherei”, (Manuel Bandeira)
Irei para uma ilha, acampar e andar descalça. Subirei ao alto para ver as tempestades, namorar com o faroleiro e abraçar a lua cheia.
Escreverei, então,cartas que envio ao mar em forma de barco, avião ou pássaro.
Voarei, sempre que quiser, nas asas de uma gaivota que terá
o nome dos meus amigos e dos meus amores.
O meu corpo saberá a mar e terá o cheiro bom das algas.
Um dia, talvez me nasçam barbatanas e uma cauda feita de
escamas. Virei a terra, passados anos, para te amar, dormir na praia e partir
pela manhã.
MM
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Verso de Manuel Bandeira
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Tempos Modernos
Ontem, perdi centenas de fotografias, textos, cartas e outros escritos pessoais que nunca divulguei. As nossas pequenas, tão pequenas, desgraças!...
Ao sabor da lua cheia
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.
"Quadrilha" de Carlos Drumond de Andrade
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Jardim D. Luís,
Lisboa 2014,
Mercado da Ribeira
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Are you a dream...?
Gostava e gosto de andar descalça. A minha avó não deixava. Aproveitava, então, a cumplicidade da Carolina, e depositava os sapatos na sua cesta, voltando a colocá-los à entrada da casa. Sabia-me bem o contacto com a terra.
Se pudesse, desejava ser, ainda hoje, a rapariga do graffiti.
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Lisboa,
Parque das Nações 2015
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
as flores e a cidade - 3º andamento
"Wilhelm dedicava-se exclusivamente a um tema a que chamava o "silêncio dos escritores", passando quase todo o dia a ler e a reler os grandes clássicos com o propósito de identificar o que os respectivos autores não tinham escrito.
... Wilhelm parecia apostado em provar que a perícia de um escritor depende dos lugares mortos, dos cadáveres das palavras, e não daquilo que verdadeiramente está escrito."
Afonso Cruz " O pintor debaixo do lava- loiças"
Amar na cidade, 2º andamento
"Quando um autor escreve a palavra "árvore" não escreve, por consequência, uma série de outras que poderia ter escrito..."
Afonso Cruz "O pintor debaixo do lava-loiças"
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Alfama sto. Estevão,
Lisboa 2015
Amar na cidade
Temos de enforcar as palavras, dizia Wilhelm, para que elas, sem a sua garganta, digam o que escondem."
Afonso Cruz "O Pintor debaixo do lava-loiças"
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Alfama sto. Estevão,
Lisboa 2015
terça-feira, 30 de junho de 2015
terça-feira, 23 de junho de 2015
Mulher Cigana - O telemóvel
Na planície alentejana esta mulher pediu-me um telemóvel. Para mim, um aparelho que encurta distâncias.
Decerto por não o ter, nunca mais nos encontrámos.
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Alentejo 2013
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Crianças ciganas - A laranja
O amado sabor de uma laranja
e a casa regressa. O mar entrava todo
por ela, vinha do sul, cheirava bem.
A árvore já não existe, no seu lugar
a melancolia está sentada.
Tem uns olhos imensos onde corre o vento
E na mão uma laranja
amarga
Eugénio de Andrade
Crianças ciganas
Cito, desconhecendo o autor, esta frase "nasci, pestanejei e morri".
Talvez, por isso, cada dia gosto mais de gente pequenina. É esta a geração que nos ressuscita. Não sei se para melhor, se para pior. Mas são, como sempre, a renovação da utopia.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
terça-feira, 19 de maio de 2015
sexta-feira, 15 de maio de 2015
segunda-feira, 4 de maio de 2015
O pato sagrado
Era um pato pequenino, tão pequeno quanto eu, amarelo como uma gema de ovo, grasnando desesperado na varanda da casa. O meu pai, acompanhando-me no espanto e na alegria da descoberta, explicou-me ser a prenda de natal que o menino jesus deixara para mim.
Ainda hoje sei, sentida ou lembrada, a emoção de ter um pato que passara pelas mãos do menino jesus.
Nos dias seguintes, admirava-me que a vida continuasse o seu ritmo normal para os demais membros da família. Parecia ser eu a única a ver, naquele bichito que corria pela casa junto aos nossos pés e que, por via dos acidentes de percurso, andava sempre de patas entrapadas, o toque sagrado das mãos de um deus que se lembrara de mim.
Mais tarde, num tempo já sem deuses, dei um pato pequenino, tão amarelo quanto o primeiro, ao meu filho.
Talvez quisesse oferecer-lhe um momento breve, mas belo, de crença.
Ainda hoje sei, sentida ou lembrada, a emoção de ter um pato que passara pelas mãos do menino jesus.
Nos dias seguintes, admirava-me que a vida continuasse o seu ritmo normal para os demais membros da família. Parecia ser eu a única a ver, naquele bichito que corria pela casa junto aos nossos pés e que, por via dos acidentes de percurso, andava sempre de patas entrapadas, o toque sagrado das mãos de um deus que se lembrara de mim.
Mais tarde, num tempo já sem deuses, dei um pato pequenino, tão amarelo quanto o primeiro, ao meu filho.
Talvez quisesse oferecer-lhe um momento breve, mas belo, de crença.
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Arco 2014 _Madrid
quarta-feira, 15 de abril de 2015
O tempo
Penso nas histórias de horror que a televisão mostra entre duas partidas de futebol. Vejo, então, estarmos tão anestesiados que não sabemos mais chorar. Somos uma nova espécie de medusas gelatinosas, não damos à praia mas já estamos mortos.
Ultimamente sonho também que morro. E todas as noites retiro mais algum tempo à vida. Faço cálculos: meses, alguns anos (os últimos passaram tão depressa! durmo? estou acordada?) e um poço negro, pesado, vazio, aloja-se-me no peito e angustia-me.
..
Sou pequenina neste sonho, é inverno e procuro imaginar a primavera para forçar a lágrima. Recusa-se, então busco a memória da minha avó Hermínia, as maçãs sumarentas do poço, o rasto tão fantasioso dos sonhos da adolescência, as cartas trocadas e o tempo ingénuo das margaridas. Não crio, não projecto, aguardo...
Estou perto do choro, mas ainda não sou capaz!
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Salgueiros velhos,
Salvaterra de Magos 2015
sexta-feira, 27 de março de 2015
Alegoria da caverna
A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que nasci,
distância imutável da minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me,
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou,
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim.
José Almada Negreiros "A sombra sou eu"
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que nasci,
distância imutável da minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me,
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou,
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim.
José Almada Negreiros "A sombra sou eu"
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Escaroupim,
Março2015
terça-feira, 10 de março de 2015
Travessia
Aos poucos desaparecem da nossa vida pessoas a quem amámos, de quem fomos amigas ou que simplesmente se cruzaram connosco.
Algumas imagino reencontrar quando observo, à noite, uma estrela no céu capaz de rir.
Outras partem simplesmente, deixando atrás de si um rasto de silêncio e desconforto. Espero, com o tempo, ouvir também o seu riso novo a encher o firmamento.
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Março 2015,
Vila Franca de Xira
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Legitimidade vs representação
Tsipras acordou os sonhos dos gregos, devolveu-lhes o orgulho de ser gente. Estremeceu a linguagem, lembrou anos antigos onde o discurso tinha o dom de acrescentar emoção ao governo da cidade.
Conta-se que um pequeno rato pode assustar o elefante...mesmo que por aí fiquemos!
E de utópico a radical de esquerda, todos os nomes são um elogio face à vergonhosa representação da "realidade" portuguesa.
Conta-se que um pequeno rato pode assustar o elefante...mesmo que por aí fiquemos!
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Centro Cultural de Belém,
Lisboa 2014
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