sábado, 15 de outubro de 2016

Antropomorfismos


Já escondi o meu corpo no tronco e nos ramos de uma árvore.
Já o escondi num corpo, num rosto, num ombro, em noites de agasalhar quem não dorme.
... e já não sei se sou árvore, se sou eu.


domingo, 4 de setembro de 2016

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Linhas quase paralelas


   




Os rastos luminosos cruzam-se e afastam-se, no céu e na noite.

A filha da moringa de barro


D. Zélia estava grávida, arredondava-se como a lua que a espreitara na noite de fazer filhos. Ficara-lhe, então, a sede. Uma sede de aplacar desertos, que mitigava com a água fresca do cântaro a saber a barro, a cheirar a barro. Era com a terra molhada que a barriga crescia e se fazia gente.
D. Zélia partiu para Lisboa ao arrepio da guerra e no encontro com a revolução que não era a sua. Não trouxe haveres, que o tempo era de medo, mas trazia as luas contadas e uma moringa de barro para saciar a sede.
Com ela, D. Zélia cumpria o gosto e o cheiro da terra de uma forma simples. Raspava o barro,dissolvia-o na água da cidade e encurtava distâncias enquanto a barriga continuava a arredondar.
D. Zélia "comeu" toda a moringa nos meses de fazer nascer... nem toda, porque D. Zélia guardou a asa que ofereceu à filha na hora de ser mulher.
Contava-lhe, então, estórias de saudade e sede de um lugar a que nunca mais voltara.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O meu Kanto



O tempo abateu-se sobre a casa
Passeiam-lhe nas ruínas os fantasmas da memória. 
Um quarto de século...
Minha infância, como era bela, cheia desses caminhos brancos semeados de pedras, mais brancas, subindo, subindo sempre..."
O velho abeto caído, a minha avó Hermínia, ramo em que me agasalhei em noites de sonho e pesadelo.

Eram passos de dança, eu sabia, e não dancei...

1989

Leituras


Ao ritmo dos humores, dos estados de alma (?) e dos amores vividos ou ficcionados, foi crescendo este blogue. Deveria ser lido do primeiro para o último dia da sua escrita. Como a água de um rio que corre. Para trás é passado. Para a frente é já a foz.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A pequena sereia em Lisboa


A pequena sereia apaixonou-se e perdeu a voz em troca de um lugar na terra dos homens. A bruxa má deu-lhe três dias para ser reconhecida e amada pelo seu príncipe. Vinda da Dinamarca, procura-o agora nas águas do Tejo, talvez no interior de um veleiro de asas abertas ao vento...
A pequena sereia desconhece que sem a magia da palavra e do canto, o amor nunca acontece. Será espuma na praia onde a profecia se irá cumprir
.

O pequeno marinheiro


quarta-feira, 20 de julho de 2016

O Sr. Alfredo


Há anos que o Sr. Alfredo resolve os pequenos problemas domésticos. É uma figura tosca, de poucas falas, lento quanto baste e a quem, normalmente, sobram peças depois do trabalho feito. Mas lá vai pregando os pregos, arranjando a máquina da roupa ou o esquentador.
É já da casa e nós gostamos dele.
Em reposta a uma pergunta, e num tom grave (levemente irritante), diz sempre "Você é que sabe!".
Quando há um problema, decerto é  " deli ou delé "! E se a torneira ficou torta, desabafa "logo vi que você era muito esquisita!".
Mas hoje o Sr. Alfredo foi mais conversador e informou-me estar muito melhor da memória " lembra-se mais das palavras" e tudo por causa da internet.
Como? O Sr. Alfredo joga, escreve, envia mails, tem um blogue? Não é bem assim, mas usa o Facebook para comunicar com a filha que está nos Açores.
Acrescente-se que o Sr. Alfredo também não tem computador, mas o milagre vai-se fazendo com o telemóvel.

Mercado vs Clientes


domingo, 10 de julho de 2016

Mãos sujas

















O Carlos, depois de lhe mandar lavar as mãos, lambidas pelo cão, diz-me:

"G., as minhas mãos estão sujas de alegria, não percebes?


domingo, 26 de junho de 2016

Reflexões sobre um auto retrato


Agustina Bessa Luís num belo conto chamado “A mãe do rio” diz : “a única solidão é aquela que não tem passado”.  

quarta-feira, 15 de junho de 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

O Céu de Picasso


Há quem veja uma senhora em cima de uma oliveira, eu vi esta andorinha nos céus de Lisboa. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

segunda-feira, 9 de maio de 2016

segunda-feira, 2 de maio de 2016

No cemitério




Sem cristos crucificados nem anjos de asas abertas.

domingo, 17 de abril de 2016

quinta-feira, 14 de abril de 2016

terça-feira, 12 de abril de 2016

Eu e os outros


As pequenas histórias são, também, a nossa maior história. Escrevo mais esta para não esquecer...
Onde eu trabalhava, aparecia diariamente um homem que sofria de uma qualquer deficiência mental que não o impedia de nos prestar pequenos serviços (levar o correio, comprar o jornal...). Era acarinhado por todos e, sabíamos, protegido pelo sindicato que, inclusive, lhe dava dormida num sótão da sede.
Gostava, particularmente, de mim e eu correspondia como podia e sabia.
Passaram-se muitos anos, já eu mudara de trabalho e profissão, já esquecera o nosso homem, quando um antigo colega me veio entregar um poster, tamanho "gigante", com a minha cara quando jovem e ainda "bem parecida".
Explicação dada, o sindicato tinha oferecido, ao meu amigo, na brincadeira, uma reprodução gráfica do meu retrato que este conservara na parede até à hora da morte.
Não me lembro do seu nome e recordo tantos outros que nunca o mereceram.


Uma casa


Há pequenos pedaços de vida, lá atrás, que nos fazem sorrir. A primeira (?) casa que ousei querer comprar, era uma palafita à beira Tejo. Mais tarde foi objecto de uma brincadeira com direito a caricatura e oferecida pela nossa Coqueluxe, em que eu ostentava várias peculiaridades levadas ao exagero: o gosto pelos vestidos indianos, os brincos grandes, os colares, sapatos para várias ocasiões, dois pares de óculos (para os esquecimentos) e muitos isqueiros. Tudo isto e uma palafita.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Margaridas




Sonhei que estavas dormindo num campo de margaridas sonhando que me chamavas, que me chamavas baixinho para me deitar contigo num campo de margaridas. No sonho ouvia o meu nome nascendo como uma estrela, como um pássaro cantando.Mas eu não fui, meu amor, que pena! mas eu não podia, porque estava dormindo num campo de margaridas sonhando que te chamava que te chamava baixinho e que em meu sonho chegavas, que te deitavas comigo e me abraçavas macia num campo de margaridas.

                                                                    Thiago de Mello


quinta-feira, 24 de março de 2016

sábado, 24 de outubro de 2015

"Difícil fotografar o silêncio"




Regresso ao blog que não consigo encerrar. Criámos "laços" difíceis de partir.
Um blog transforma-se, com o tempo, num encontro connosco, e é penoso acordar só....continuará, então, a existir para pequenos textos que roubo à gaveta, ao silêncio dos dias ou ao rasgar do tempo.

Kantodafotografia será um novo lugar onde procuro mostrar (a algum extraterrestre que espreite núvens), as imagens que guardo na memória, sempre mais fiel, da minha máquina.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Despedida


“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei/ lá tenho a mulher que eu quero/ na cama que escolherei”, (Manuel Bandeira)

Irei para uma ilha, acampar e andar descalça. Subirei ao alto para ver as tempestades, namorar com o faroleiro e abraçar a lua cheia.
Escreverei, então,cartas que envio ao mar em forma de barco, avião ou pássaro.
Voarei, sempre que quiser, nas asas de uma gaivota que terá o nome dos meus amigos e dos meus amores.
O meu corpo saberá a mar e terá o cheiro bom das algas.

Um dia, talvez me nasçam barbatanas e uma cauda feita de escamas. Virei a terra, passados anos, para te amar, dormir na praia e partir pela manhã.

MM

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Tempos Modernos





Ontem, perdi centenas de  fotografias, textos, cartas e outros escritos pessoais que nunca divulguei. As nossas pequenas, tão pequenas, desgraças!...








Ao sabor da lua cheia





João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.


"Quadrilha" de Carlos Drumond de Andrade

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Are you a dream...?


Gostava  e gosto de andar descalça. A minha avó não deixava. Aproveitava, então, a cumplicidade da Carolina, e depositava os sapatos na sua cesta, voltando a colocá-los à entrada da casa. Sabia-me bem o contacto com a terra.
Se pudesse, desejava ser, ainda hoje, a rapariga do graffiti.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

as flores e a cidade - 3º andamento


"Wilhelm dedicava-se exclusivamente a um tema a que chamava o "silêncio dos escritores", passando quase todo o dia a ler e a reler os grandes clássicos com o propósito de identificar o que os respectivos autores não tinham escrito.
... Wilhelm parecia apostado em provar que a perícia de um escritor depende dos lugares mortos, dos cadáveres das palavras, e não daquilo que verdadeiramente está escrito."

Afonso Cruz " O pintor debaixo do lava- loiças"

Amar na cidade, 2º andamento















"Quando um autor escreve a palavra "árvore" não escreve, por consequência, uma série de outras que poderia ter escrito..."

Afonso Cruz "O pintor debaixo do lava-loiças"

Amar na cidade



Temos de enforcar as palavras, dizia Wilhelm, para que elas, sem a sua garganta, digam o que escondem."

Afonso Cruz "O Pintor debaixo do lava-loiças"

terça-feira, 30 de junho de 2015

Biba Purtugal




















Biba Purtugal
Uns bão bem, outros mal!


terça-feira, 23 de junho de 2015

Mulher Cigana - O telemóvel


Na planície alentejana esta mulher pediu-me um telemóvel. Para mim, um aparelho que encurta distâncias. 
Decerto por não o ter, nunca mais nos encontrámos. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Crianças ciganas - A laranja


O amado sabor de uma laranja
e a casa regressa. O mar entrava todo
por ela, vinha do sul, cheirava bem.
A árvore já não existe, no seu lugar
a melancolia está sentada.
Tem uns olhos imensos onde corre o vento
E na mão uma laranja
amarga

                                                       Eugénio de Andrade

Crianças ciganas



Cito, desconhecendo o autor, esta frase  "nasci, pestanejei e morri". 
Talvez, por isso, cada dia gosto mais de gente pequenina. É esta a geração que nos ressuscita. Não sei se para melhor, se para pior. Mas são, como sempre, a renovação da utopia.