domingo, 22 de janeiro de 2017
Stop the Time
Partiram os dois, com pouco intervalo de tempo.
Da minha mãe, guardo as suas mãos onde nasciam flores, pássaros, gentes e cores, figuras pintadas a óleo ou em porcelana, que povoam a casa e hão-de permanecer como realidades concretas. Estas mãos, versáteis,capazes de criar beleza e admiração, de lhe preservar a memória, estranhamente, não sabiam fazer a festa.
Lembro como, em pequena, desejava ter febre para sentir a sua mão gelada na testa. Ainda hoje faço o mesmo ao meu filho, na esperança de lhe dar prazer.
A minha rua perdeu brilho, tornou-se mais vulgar, sem a sua presença.
Do segundo, lembro o privilégio de o ter como amigo, da satisfação de umas palavras trocadas na entrada da sua casa, do seu humor mesmo quando a vida já não tinha graça.
O meu prédio está mais vazio. Não me apetece parar naquele patamar.
domingo, 15 de janeiro de 2017
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Frase do dia
O Carlos fez 10 anos e sente-se, como diz, um "pré adolescente". É mais contido nas palavras, nas opiniões, porque muitos assuntos que lhe interessam já não são do meu domínio. Os nossos universos começam a ficar limitados por vivências diferentes: "poderes" e monstros que me são estranhos, filmes que não vejo, músicas que não conheço, tecnologias que ignoro. Um outro processo mágico!
Mais pequeno, eu ainda "pescava" nas palavras as descobertas que fazia e como, depois, as transformava em conhecimento. Frases que faziam a minha delícia e o meu espanto.
Hoje regresso ao espanto e registo esta resposta a uma qualquer provocação que já não recordo:
"Tenho de me livrar do passado para poder pensar o futuro"
Upss!
Isto é dito entre a ironia e uma certa dose de gravidade, como quem projeta nas palavras uma reflexão já elaborada anteriormente.
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2016,
Grafite Lx.Factory
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
O pai, a Beatriz e a princesa Elsa
Francisca vivera na aldeia, filha de trabalhadores agrícolas. Conta-me que, chegado o mês de Dezembro, o pinheiro de natal era decorado com papéis de prata, coleccionados ao longo dos anos, retirados dos chocolates e depois alisados e guardados entre as folhas de um livro; as prendas do menino jesus resumiam-se a seis nozes, um pai natal e um chapéu de chuva de chocolate. Todos os anos era assim, mandava a tradição e a condição económica da família.
Na manhã de confirmar os doces no sapatinho, a alegria repetia-se num reencontro anualmente desejado, fazendo de cada ano um ano novo.
Pergunto-me, então, se ser feliz é não ter expectativas. Uma voz antiga disse-mo, e não era natal!
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2016,
Parqueamento da Lx.Factory
sábado, 17 de dezembro de 2016
O medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos,
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas,
"Congresso Internacional do Medo" de Carlos Drumond de Andrade
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
A árvore e a casa
O verde agarrou a casa. Sobe-lhe pelas paredes, entra pelas janelas, discute o espaço e cobre as ruínas. A vida e a morte num abraço de quadro a óleo.
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2016,
Cabo Espichel
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
Cores de Outono
Se um dia abandonar o bom senso e me deixar enlouquecer pelo sol. hei-de falar com as árvores e aninhar-me num dos seus ramos, como um pássaro.
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Lisboa 2016,
Monsanto
Medronhos em Monsanto
Nasce de uma flor branca e decorativa, transforma-se numa baga verde, depois amarela, por fim amadurece num vermelho forte que tinge o chão de Novembro e embriaga os olhos de tentações de açúcar.
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Lisboa 2016,
Monsanto
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Eu e os meus objetos
Três figuras. A mulher que abraça a criança, as minhas cantarinhas de barro a subirem-me pelo corpo e pela memória dos tempos, um camelo, imagem de um deserto onde fui (como diria o outro) muito feliz, e de uma ceramista - Bernardete Gomes - que trabalha o barro como quem pinta a espátula.
Pormenor do meu amigo camelo.
Nas feiras de artesanato espero sempre encontrá-los. É um casal de jovens, bonitos por inteiro, o que se traduz também num ar de gente doce. Trazem muitos e variados bonecos, monstrinhos, gravetos em forma de qualquer coisa entre o humano e o vegetal. Benamai Sá Pinto não sei se é o seu nome de "guerra". Este boneco de madeira com asas de anjo ou borboleta foi, pelo tamanho e características, uma das suas primeiras criações. Tenho outros, uma crescente família délfica, que espanta os meus fantasmas nas várias janelas da casa. Comprei-o pouco antes de nascer o Carlos que, conforme crescia, se media com aquele ser de asas abertas à entrada da sala.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
Na praia
Muito cedo, hoje, ontem, numa terça feira passada, em 2005 ou 2013, os meus olhos aprenderam a secura dos desertos. É uma doença estranha, já que não se legitima por causas ou razões observáveis. É antes uma falta na mais profunda raiz de mim, um silêncio amargo do meu corpo que recusa o fresco da água.
Sinto ainda, no pequeno gesto ou no insignificante
acontecer, a ameaça de uma lágrima que não chega a cair, mas que me diz da
alegria de estar viva.
Guardo, então, num velho cofre a palavra emoção com um medo
enorme de perdê-la.
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Margarida com 2 anos
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Verão de S.Martinho
Hoje houve um belo dia de sol e, à noite, uma super lua só visível de novo, dizem, daqui a 16 anos.
Que mais desejar num mês de Novembro?
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14 de Novembro de 2016
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Sós
“Hoje a mãe morreu”, começa assim o “Estrangeiro” de Albert Camus.
Dizem que a morte acrescenta estrelas no céu. No céu que
vejo da minha janela, não creio, mas afirmo, mãe, que a minha rua se apagou sem a tua
presença.
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Alentejo 2015
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
As árvores do meu rio
Silhueta à beira rio
Esta noite, uma nuvem cinzenta, pesada, atravessa e ameaça a lua redonda, cor de prata.
A lua espreitava, então, com uma face dividida, carregada de maus humores, esperando impaciente que o tempo, o vento ou os deuses lhe devolvesse de novo a canção da alegria..
Ao vê-la, percebi que a lua estava zangada. Hoje não estava para amar!
sábado, 15 de outubro de 2016
As penas do eucalipto
... desprendem-se em desenhos estranhos e morrem abraçados ao tronco, como num poema de Ievtuchenko.
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Cascais,
Jardim Mar.Carmona 2016
Antropomorfismos
Já escondi o meu corpo no tronco e nos ramos de uma árvore.
Já o escondi num corpo, num rosto, num ombro, em noites de agasalhar quem não dorme.
... e já não sei se sou árvore, se sou eu.
Já o escondi num corpo, num rosto, num ombro, em noites de agasalhar quem não dorme.
... e já não sei se sou árvore, se sou eu.
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2016,
Cascais,
Jardim Mar.Carmona
domingo, 4 de setembro de 2016
terça-feira, 23 de agosto de 2016
A filha da moringa de barro
D. Zélia estava grávida, arredondava-se como a lua que a espreitara na noite de fazer filhos. Ficara-lhe, então, a sede. Uma sede de aplacar desertos, que mitigava com a água fresca do cântaro a saber a barro, a cheirar a barro. Era com a terra molhada que a barriga crescia e se fazia gente.
D. Zélia partiu para Lisboa ao arrepio da guerra e no encontro com a revolução que não era a sua. Não trouxe haveres, que o tempo era de medo, mas trazia as luas contadas e uma moringa de barro para saciar a sede.
Com ela, D. Zélia cumpria o gosto e o cheiro da terra de uma forma simples. Raspava o barro,dissolvia-o na água da cidade e encurtava distâncias enquanto a barriga continuava a arredondar.
D. Zélia "comeu" toda a moringa nos meses de fazer nascer... nem toda, porque D. Zélia guardou a asa que ofereceu à filha na hora de ser mulher.
Contava-lhe, então, estórias de saudade e sede de um lugar a que nunca mais voltara.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
O meu Kanto
O tempo abateu-se sobre a casa
Passeiam-lhe nas ruínas os fantasmas da memória.
Um quarto de século...
Minha infância, como era bela, cheia desses caminhos brancos semeados de pedras, mais brancas, subindo, subindo sempre..."
O velho abeto caído, a minha avó Hermínia, ramo em que me agasalhei em noites de sonho e pesadelo.
Eram passos de dança, eu sabia, e não dancei...
1989
Leituras
Ao ritmo dos humores, dos estados de alma (?) e dos amores vividos ou ficcionados, foi crescendo este blogue. Deveria ser lido do primeiro para o último dia da sua escrita. Como a água de um rio que corre. Para trás é passado. Para a frente é já a foz.
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Jardim Museu Thyssen,
Madrid 2016
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
quinta-feira, 28 de julho de 2016
A pequena sereia em Lisboa
A pequena sereia apaixonou-se e perdeu a voz em troca de um lugar na terra dos homens. A bruxa má deu-lhe três dias para ser reconhecida e amada pelo seu príncipe. Vinda da Dinamarca, procura-o agora nas águas do Tejo, talvez no interior de um veleiro de asas abertas ao vento...
A pequena sereia desconhece que sem a magia da palavra e do canto, o amor nunca acontece. Será espuma na praia onde a profecia se irá cumprir
.
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Lisboa 2016,
The Tall ships race
quarta-feira, 20 de julho de 2016
O Sr. Alfredo
Há anos que o Sr. Alfredo resolve os pequenos problemas domésticos. É uma figura tosca, de poucas falas, lento quanto baste e a quem, normalmente, sobram peças depois do trabalho feito. Mas lá vai pregando os pregos, arranjando a máquina da roupa ou o esquentador.
É já da casa e nós gostamos dele.
Em reposta a uma pergunta, e num tom grave (levemente irritante), diz sempre "Você é que sabe!".
Quando há um problema, decerto é " deli ou delé "! E se a torneira ficou torta, desabafa "logo vi que você era muito esquisita!".
Mas hoje o Sr. Alfredo foi mais conversador e informou-me estar muito melhor da memória " lembra-se mais das palavras" e tudo por causa da internet.
Como? O Sr. Alfredo joga, escreve, envia mails, tem um blogue? Não é bem assim, mas usa o Facebook para comunicar com a filha que está nos Açores.
Acrescente-se que o Sr. Alfredo também não tem computador, mas o milagre vai-se fazendo com o telemóvel.
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A.R.C.O,
Madrid 2012
domingo, 10 de julho de 2016
Mãos sujas
O Carlos, depois de lhe mandar lavar as mãos, lambidas pelo cão, diz-me:
"G., as minhas mãos estão sujas de alegria, não percebes?
domingo, 26 de junho de 2016
Reflexões sobre um auto retrato
Agustina Bessa Luís num belo conto chamado “A
mãe do rio” diz : “a única solidão é aquela que não tem passado”.
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FotoEspanha,
Madrid 2016
quarta-feira, 15 de junho de 2016
terça-feira, 24 de maio de 2016
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