quarta-feira, 26 de abril de 2017
domingo, 9 de abril de 2017
Primavera
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Manuel de Barros "O livro sobre nada"
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Povoa de Sta. Iria
sábado, 25 de março de 2017
Carlos e a poesia
O Carlos, com quatro anos, afirmava querer vir a ser "desenhista", "escrevista" ou mágico, este último depressa emendado para a nobre profissão de "duende".
Passados alguns anos, seis para ser exacta, confirma-se a veia desenhista, actualmente com incursões pela banda desenhada, e inicia-se na escrita com umas aventuras líricas de sabor poético. Vejamos:
No papel novinho em folha
Desenhei uma papoila
Subitamente sem hesitar
Saiu do papel a voar
Pousou na terra a cantar
Toda feliz a falar
Sem parar de sorrir
E assim, cruzando o desenhista com o escrevista, se cumpre a magia naquela papoila que voa.
sexta-feira, 24 de março de 2017
Adeus! Adeus!
Devia morrer-se de outra maneira. Transformando-nos em fumo, por exemplo. Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir-se de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do grande "disfazer" : - Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às nove horas. Traje de passeio.
E então, solenemente, com passos de reter o tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mão quentes, ternura de calafrios "Adeus! Adeus!"
José Gomes Ferreira
Chefchaouene
Éramos dois em Chefchaouene frente a uma nuvem rosa. Tão só quanto eu, a tua dança convocava o espírito dos céus. Haveria música? Eu tocava-a à noitinha, quando os sapos invadiam a terra e tinham a humidade dos verdes e dos castanhos encantados. A música era real? Era breve? Eram sons do encontro entre o silêncio e o meu corpo? Que música era essa que embalava os meus sentidos?
Fomos duas pessoas a saber beber chá de rosa e menta em Chefchaouene.
quarta-feira, 8 de março de 2017
Anita, a burra
Em Marrocos via-os pequenos, roliços, de pelo longo, como brinquedos em mãos adultas. Voltámos várias vezes àquela feira onde se vendiam e compravam após grandes discussões quanto ao seu preço, à qualidade e à resistência do animal. Tinham, normalmente, um ar doce e triste, como quem sabe que só lhes resta um futuro difícil de trabalhos pesados.
Em Alcochete, na reserva, encontrei o Ernesto, um burro português que comia flores e, por via dos seus excessos, fora separado das fêmeas. Não sei se o Ernesto foi até ao Alentejo...
...mas numa quinta de sobreiros, flores e pequenas lagoas, onde a terra é religião, uma burra escolheu dar à luz no dia 26 de Fevereiro uma cria que foi chamada de Anita.
Sabem porquê?
Em honra da minha amiga Ana que, ao fazer anos, nunca recebera uma tão merecida e bela prenda.
Há aniversários felizes e burros com sorte.
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Almada,
Ginjal 2015
sábado, 25 de fevereiro de 2017
Os meus cantos
Escreve-se nas folhas verdes de um cato, no tronco de um castanheiro, numa parede branca, ou num conjunto de figuras que se aninham num canto daquela sala.
domingo, 12 de fevereiro de 2017
Marvila
Ao dobrar uma curva, passamos por baixo de um arco antigo, feito de pedras e musgo, que se abre para um conjunto de ruas estreitas e cheias de cor. Talvez um antigo bairro operário, onde os sobreviventes de uma época e os abandonados de outra, se encontraram. Como aquela roupa estendida que atravessa a rua e liga as duas janelas.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
sábado, 28 de janeiro de 2017
domingo, 22 de janeiro de 2017
Stop the Time
Partiram os dois, com pouco intervalo de tempo.
Da minha mãe, guardo as suas mãos onde nasciam flores, pássaros, gentes e cores, figuras pintadas a óleo ou em porcelana, que povoam a casa e hão-de permanecer como realidades concretas. Estas mãos, versáteis,capazes de criar beleza e admiração, de lhe preservar a memória, estranhamente, não sabiam fazer a festa.
Lembro como, em pequena, desejava ter febre para sentir a sua mão gelada na testa. Ainda hoje faço o mesmo ao meu filho, na esperança de lhe dar prazer.
A minha rua perdeu brilho, tornou-se mais vulgar, sem a sua presença.
Do segundo, lembro o privilégio de o ter como amigo, da satisfação de umas palavras trocadas na entrada da sua casa, do seu humor mesmo quando a vida já não tinha graça.
O meu prédio está mais vazio. Não me apetece parar naquele patamar.
domingo, 15 de janeiro de 2017
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Frase do dia
O Carlos fez 10 anos e sente-se, como diz, um "pré adolescente". É mais contido nas palavras, nas opiniões, porque muitos assuntos que lhe interessam já não são do meu domínio. Os nossos universos começam a ficar limitados por vivências diferentes: "poderes" e monstros que me são estranhos, filmes que não vejo, músicas que não conheço, tecnologias que ignoro. Um outro processo mágico!
Mais pequeno, eu ainda "pescava" nas palavras as descobertas que fazia e como, depois, as transformava em conhecimento. Frases que faziam a minha delícia e o meu espanto.
Hoje regresso ao espanto e registo esta resposta a uma qualquer provocação que já não recordo:
"Tenho de me livrar do passado para poder pensar o futuro"
Upss!
Isto é dito entre a ironia e uma certa dose de gravidade, como quem projeta nas palavras uma reflexão já elaborada anteriormente.
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2016,
Grafite Lx.Factory
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
O pai, a Beatriz e a princesa Elsa
Francisca vivera na aldeia, filha de trabalhadores agrícolas. Conta-me que, chegado o mês de Dezembro, o pinheiro de natal era decorado com papéis de prata, coleccionados ao longo dos anos, retirados dos chocolates e depois alisados e guardados entre as folhas de um livro; as prendas do menino jesus resumiam-se a seis nozes, um pai natal e um chapéu de chuva de chocolate. Todos os anos era assim, mandava a tradição e a condição económica da família.
Na manhã de confirmar os doces no sapatinho, a alegria repetia-se num reencontro anualmente desejado, fazendo de cada ano um ano novo.
Pergunto-me, então, se ser feliz é não ter expectativas. Uma voz antiga disse-mo, e não era natal!
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2016,
Parqueamento da Lx.Factory
sábado, 17 de dezembro de 2016
O medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos,
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas,
"Congresso Internacional do Medo" de Carlos Drumond de Andrade
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
A árvore e a casa
O verde agarrou a casa. Sobe-lhe pelas paredes, entra pelas janelas, discute o espaço e cobre as ruínas. A vida e a morte num abraço de quadro a óleo.
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2016,
Cabo Espichel
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
Cores de Outono
Se um dia abandonar o bom senso e me deixar enlouquecer pelo sol. hei-de falar com as árvores e aninhar-me num dos seus ramos, como um pássaro.
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Lisboa 2016,
Monsanto
Medronhos em Monsanto
Nasce de uma flor branca e decorativa, transforma-se numa baga verde, depois amarela, por fim amadurece num vermelho forte que tinge o chão de Novembro e embriaga os olhos de tentações de açúcar.
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Lisboa 2016,
Monsanto
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Eu e os meus objetos
Três figuras. A mulher que abraça a criança, as minhas cantarinhas de barro a subirem-me pelo corpo e pela memória dos tempos, um camelo, imagem de um deserto onde fui (como diria o outro) muito feliz, e de uma ceramista - Bernardete Gomes - que trabalha o barro como quem pinta a espátula.
Pormenor do meu amigo camelo.
Nas feiras de artesanato espero sempre encontrá-los. É um casal de jovens, bonitos por inteiro, o que se traduz também num ar de gente doce. Trazem muitos e variados bonecos, monstrinhos, gravetos em forma de qualquer coisa entre o humano e o vegetal. Benamai Sá Pinto não sei se é o seu nome de "guerra". Este boneco de madeira com asas de anjo ou borboleta foi, pelo tamanho e características, uma das suas primeiras criações. Tenho outros, uma crescente família délfica, que espanta os meus fantasmas nas várias janelas da casa. Comprei-o pouco antes de nascer o Carlos que, conforme crescia, se media com aquele ser de asas abertas à entrada da sala.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
Na praia
Muito cedo, hoje, ontem, numa terça feira passada, em 2005 ou 2013, os meus olhos aprenderam a secura dos desertos. É uma doença estranha, já que não se legitima por causas ou razões observáveis. É antes uma falta na mais profunda raiz de mim, um silêncio amargo do meu corpo que recusa o fresco da água.
Sinto ainda, no pequeno gesto ou no insignificante
acontecer, a ameaça de uma lágrima que não chega a cair, mas que me diz da
alegria de estar viva.
Guardo, então, num velho cofre a palavra emoção com um medo
enorme de perdê-la.
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Margarida com 2 anos
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Verão de S.Martinho
Hoje houve um belo dia de sol e, à noite, uma super lua só visível de novo, dizem, daqui a 16 anos.
Que mais desejar num mês de Novembro?
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14 de Novembro de 2016
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Sós
“Hoje a mãe morreu”, começa assim o “Estrangeiro” de Albert Camus.
Dizem que a morte acrescenta estrelas no céu. No céu que
vejo da minha janela, não creio, mas afirmo, mãe, que a minha rua se apagou sem a tua
presença.
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Alentejo 2015
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
As árvores do meu rio
Silhueta à beira rio
Esta noite, uma nuvem cinzenta, pesada, atravessa e ameaça a lua redonda, cor de prata.
A lua espreitava, então, com uma face dividida, carregada de maus humores, esperando impaciente que o tempo, o vento ou os deuses lhe devolvesse de novo a canção da alegria..
Ao vê-la, percebi que a lua estava zangada. Hoje não estava para amar!
sábado, 15 de outubro de 2016
As penas do eucalipto
... desprendem-se em desenhos estranhos e morrem abraçados ao tronco, como num poema de Ievtuchenko.
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Cascais,
Jardim Mar.Carmona 2016
Antropomorfismos
Já escondi o meu corpo no tronco e nos ramos de uma árvore.
Já o escondi num corpo, num rosto, num ombro, em noites de agasalhar quem não dorme.
... e já não sei se sou árvore, se sou eu.
Já o escondi num corpo, num rosto, num ombro, em noites de agasalhar quem não dorme.
... e já não sei se sou árvore, se sou eu.
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2016,
Cascais,
Jardim Mar.Carmona
domingo, 4 de setembro de 2016
terça-feira, 23 de agosto de 2016
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