domingo, 9 de março de 2014

A poesia também se come




"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria."


Almada Negreiros "A invenção do dia claro"







"porque eu sou do tamanho do que vejo
e não do tamanho da minha altura..."



Alberto Caeiro "Guardador de Rebanhos"



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A raiz da escrita

Uma língua no cume
do olhar
para dizer a ciência
que há
na árvore da viagem
da raiz
à semente

Fora da casa
e por dentro
sempre
onde haja um telhado
sobre o silêncio

Um rosto
Um rio
Um poço

A gota de água
Duma sílaba

 "Os amigos" de "O sol no tecto", Renato Monteiro


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Nazaré


Um homem, frente ao mar, bebe lentamente uma cerveja, enquanto observa a força das ondas.

Às vezes é necessário estar só!


Rio Tejo


Gente avieira que, no interior de um barco, lançavam e recolhiam as redes; faziam o lume; amavam e cortavam o cordão umbilical aos filhos que pariam.

Hoje, já velhos, acariciam as embarcações à borda de água.

Ti Elisa diz-me:

...olho o rio e falo com as minhas recordações. Às vezes choro!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O ano do cavalo


As comemorações do ano novo chinês, ano do cavalo, reuniram esta comunidade na praça do Martim Moniz.

Mas a China, como tudo que se não compreende, é uma realidade ainda estranha no corpo do meu país.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Coisas estranhas

Ainda não se sente o cheiro de uma nova estação, como não se sente este país pequeno e resignado que parece impotente e adormecido. Talvez este sentimento se agarre à nossa alma e nos faça, como diz uma amiga minha, doente da vontade. Doente da vontade para sentir, para ver, para partilhar…


Até as gaivotas fugiram do mar e pousam nos jardins desta cidade. Há muita coisa estranha neste novo século. 

Só a música que toca ali, no canto da sala, nos faz acreditar que há gente que permanece. A voz do Zeca Afonso, a Cristina Branco, a Cesária Évora e, agora, o Charles Aznavour. ..

Fundação Champalimaud


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Estilos e ironias


 A casa, a nossa segunda pele, fala-nos do que somos e de quem gostaríamos de ser. Isto é mais visível nos bairros clandestinos onde cada um, conforme o gosto e os materiais ao dispor, vai construindo o seu universo e os seus sonhos.


Completa-se o quadro, ainda, quando as ruas têm o nome de avenidas e a pobreza sorri por se sentir milionária.


domingo, 19 de janeiro de 2014

Folhas escritas




                     Que fazer a tantas folhas escritas que ninguém leu?
                                  Silêncios que não consigo rasgar.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Praia da Adraga


Ainda hoje as pedras, como as nuvens e as árvores,  nos surpreendem com desenhos que alimentam o nosso imaginário. São, muitas vezes, metáforas perfeitas para falar de medos e desejos.

Também o mar surpreende, quando nos oferece, sem aviso prévio, o primeiro banho de 2014.

Praia da Adraga


domingo, 5 de janeiro de 2014

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Alegria 3

A par do ano que se despede, o tempo passa rapidamente. Guardo alguns intervalos para brincar com a tradução de um artigo que me vai relembrando o francês esquecido. Agradeço ao Karim.

... e quando não vimos a objetiva da máquina fotográfica porque somos um só, nós e o livro, qualquer ano novo terá bons momentos de alegria.

Alegria 2


Alegria 1



domingo, 22 de dezembro de 2013

Curiosidade de gente



Hoje foi o dia das cadeiras novas e dos animais com história. Comprámos uma galinha viva. O Carlos achou uma notícia destas tão estranha, que precisou de confirmar comigo. Ainda mereço, ao contrário do avô, alguma credibilidade.
Prometi abrir-lhe a porta do carro, de mansinho, e deixá-la fugir para a liberdade do campo alentejano.


Agora, como explicar "aquele prato" no menu de natal?


sábado, 21 de dezembro de 2013

Solstício de Inverno



Há semanas que, por falta de limpeza camarária, as ruas da minha cidade brilham com as folhas amarelas de um outono que se despede devagar.
Hoje, numa dessas ruas sem nome nem história, um vento fortíssimo levantou aquele tapete de cor e as folhas dos meus plátanos dançaram, dançaram, em volta de gente e de carros.
Despediu-se o outono numa das mais belas e inesperadas imagens a que assisti. Foi tão belo que teve, necessariamente, que ser breve.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Maré Cheia




quando os teus olhos se perderem no interior de ti, procura um lugar onde o mar rebente na praia.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

SE...

“si j´etais soluble dans l´eau, tel un savon de vieux lavoir, je me laisserais fondre ici, rejoignant la mémoire du lac e ses molécules brassés qui ont visité l´univers. Un peu de moi  aurait la pertinence de la pluie qui ruisselle sur la Dent d´Oche; un peu de moi serait mêlé à la nourriture des perches qui garnissent vos plats. J´entretiendrais vos nerfs, vos muscles e je saurais vos émotions. Enterré avec vous, j´irais engraisser des vers de terre que les merles  extirperaient voracement. Évaporé dans l´air, j´appartiendrais modestement à la fulgurance des éclairs, à l´embrasement des couchants et je neigerais sur la ville.”


Pierre –Laurent Ellenberger  (post de Katchdabratch 29 de Novembro de 2013)

Marcas




Madiba, um nome que marca a diferença.
Um riso branco a iluminar o céu.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

o banco e o mar


Um encontro a cinco, frente ao mar, em que se misturam geriberas com cana de bambu, crina de cavalo, saudades e solidariedades (diz a Cris), é uma dádiva dos deuses em tempo de crise…

A vida joga-se, também, aqui.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A raiz do castanheiro



Dizem que reconheço um castanheiro em qualquer azinheira. Talvez. Mas o que se ama nem sempre é nomeável. Ama-se, simplesmente. Tentei, por várias vezes, aprender-lhes os nomes, conhecer as diferenças, mas em vão. O que eu guardo dos meus castanheiros, sejam eles sobreiros, abetos, choupos ou salgueiros, é do seu canto quando os pássaros se recolhem no final do dia, é do cheiro a verde e terra, é da sua sombra … e, também, dos corpos que fingem ser, descarnados e humanizados quando secos ou quando morrem.  

sábado, 9 de novembro de 2013

Família cigana

                      
                              



                                             


Terra
sem uma gota
de céu

Carlos de Oliveira "A Leve Tempera do Vento"

domingo, 6 de outubro de 2013

Caminhos de Ourém


- Pai, quero ir à catequese.

- Carlos, mas sabes o que é a catequese?

- sei, deve ser, assim, como o McDonald´s!

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Bons sonhos


Uma mulher é entrevistada na marginal do Funchal.Vem fugida ao fogo que lhe cercou a casa. Fala do medo e, entre lágrimas, acrescenta:


 "... aprendi, esta noite, que uma vida inteira cabe nestes quatro sacos que trouxe comigo".

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O acento agudo



Pais angustiados num país angustiado!

Pensei na importância daquele acento agudo...


domingo, 22 de setembro de 2013

Lazer na quinta das conchas




Sabes, eu sou um backugan bom, porque tu não gostavas de mim se eu fosse um backugan mau...

Carlos

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Interlúdio "O meu Avô e o amor em 1910"



O meu avô morreu era eu pequena. Deixou-me a avó Hermínia, avó Bibi para o meu filho. A mais terna das mulheres que conheci. Não tenho dela fotografias, mas tenho sensações de protecção, do seu calor materno e, para a pequena estória pessoal, postais e desenhos vários que o amor lhe deixou.

Do meu avô sei que era laico, republicano, além de um homem bom e de princípios morais fortes. Sempre o vi como a referência dos vivos, naquela casa onde senti e aprendi a crescer.

Apeteceu-me trazê-lo aqui. Tirá-lo da gaveta. E com ele, recuperar a sua relação com a minha avó Hermínia. Ter a ilusão de a tornar menos perecível.

Recuar no tempo...
Talvez, também, recuperar parte de mim.

domingo, 15 de setembro de 2013

O meu avô

Nas pétalas d' uma flôr

Perguntei-lhe:

Alva, gentil, graciosa e bella
Flôr singela de perfume celeste
Que aroma mimoso! Que linda tu és!
Cahida a meus pés... D' onde vieste?

Respondeu-me:
O dever de flôr impõe-me segredo,
Mas acabe esse medo, tyrano preceito
Voei do jardim que a tua alma adora
Encontro-me agora sobre o teu peito.

Num seio casto outr´ora dormi,
D´elle pendi como rôxa glycinia
Agora perfumo o teu coração
Como recordação de ....Maria Hermínia

A flôr que recebi na noite de 4/4/1910
                                                                             Augusto

O meu avô (parte 1)




Songe d´Amour

Tristes flôres que a morte espreita
A quem a vida ceifei na pujança
Mimoso perfume, que assim me deleita
Dispersas no colo, pendidas na trança

Pobresinhas e tristes que ides mirrar
No seio, inclemente que, audaz, vos cortou
Se lágrimas de dôr vos podem salvar,
brotem aquellas que a innocência calou


O meu avô (parte 2)




De repente um sorriso nos lábios brincava
Quebrando a dor num peito divino
E um coro de flôres, ternamente, bradava:
Não chores. Q´importa?...É nosso destino...

Ah! Já não posso contemplar-vos mais...
Dói-me o coração de vos ver assim...
Os primeiros olhos que lêrem meus ais...
Que vos levem a vós e me abandonem a mim...


Augusto

11-6-1910

domingo, 8 de setembro de 2013

A árvore



Uma fotografia "ao baixo", dedicada ao Flor...

... afinal, continua a ser um retrato!

sábado, 7 de setembro de 2013

Síntese



Habito, sem me decidir, entre o prazer de uma literatura poética, lírica ou mesmo fantástica, e uma outra, que reflete uma visão seca e dorida do quotidiano, do tempo e da vida.

Entre estas duas, aprende-se a evitar a escrita.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013