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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sabes...?




Sabes porque me assusta a morte?
Porque deixaste pedaços de ti dispersos, nas gavetas, nos papéis, nas cartas guardadas, nos bonecos que decoram a casa, nos barros que trazes da infância, nos postais com letras várias e emoções antigas, nos santos bordados a renda com estórias por contar.

Como um puzzle a que faltam peças, todos são bocados incompletos de ti. Não pertencem aos que ficam, não lhes dizem da tua vida mais do que a imagem obscura do silêncio que transportam.

Não são também facilmente descartáveis, são, antes, um problema que te sobrevive, uma outra morte desconfortada e adiada até ao amanhecer de um outro dia que se quer limpo.



quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Frase do dia



O Carlos fez 10 anos e sente-se, como diz, um "pré adolescente". É mais contido nas palavras, nas opiniões, porque muitos assuntos que lhe interessam já não são do meu domínio. Os nossos universos começam a ficar limitados por vivências diferentes: "poderes" e monstros que me são estranhos, filmes que não vejo, músicas que não conheço, tecnologias que ignoro. Um outro processo mágico!

Mais pequeno, eu ainda  "pescava" nas palavras as descobertas que fazia e como, depois, as transformava em conhecimento. Frases que faziam a minha delícia e o meu espanto.

 Hoje regresso ao espanto e registo esta resposta a uma qualquer provocação que já não recordo:

"Tenho de me livrar do passado para poder pensar o futuro"
Upss!

Isto é dito entre a ironia e uma certa dose de gravidade, como quem projeta nas palavras uma reflexão já elaborada anteriormente.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O pai, a Beatriz e a princesa Elsa


Francisca vivera na aldeia, filha de trabalhadores agrícolas. Conta-me que, chegado o mês de Dezembro, o pinheiro de natal era decorado com papéis de prata, coleccionados ao longo dos anos, retirados dos chocolates e depois alisados e guardados entre as folhas de um livro; as prendas do menino jesus resumiam-se a  seis nozes, um pai natal e um chapéu de chuva de chocolate. Todos os anos era assim, mandava a tradição e a condição económica da família.
Na manhã de confirmar os doces no sapatinho, a alegria repetia-se num reencontro anualmente desejado, fazendo de cada ano um ano novo.

Pergunto-me, então, se ser feliz é não ter expectativas. Uma voz antiga disse-mo, e não era natal!

sábado, 17 de dezembro de 2016

O medo



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos,
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas,


"Congresso Internacional do Medo" de Carlos Drumond de Andrade






sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A árvore e a casa


O verde agarrou a casa. Sobe-lhe pelas paredes, entra pelas janelas, discute o espaço e cobre as ruínas.  A vida e a morte num abraço de quadro a óleo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Silhueta à beira rio






Esta noite, uma nuvem cinzenta, pesada, atravessa e ameaça a lua redonda, cor de prata.
A lua espreitava, então, com uma face dividida, carregada de maus humores, esperando impaciente que o tempo, o vento ou os deuses lhe devolvesse de novo a canção da alegria..

Ao vê-la, percebi que a lua estava zangada. Hoje não estava para amar!

sábado, 15 de outubro de 2016

Antropomorfismos


Já escondi o meu corpo no tronco e nos ramos de uma árvore.
Já o escondi num corpo, num rosto, num ombro, em noites de agasalhar quem não dorme.
... e já não sei se sou árvore, se sou eu.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Linhas quase paralelas


   




Os rastos luminosos cruzam-se e afastam-se, no céu e na noite.

terça-feira, 24 de maio de 2016

O Céu de Picasso


Há quem veja uma senhora em cima de uma oliveira, eu vi esta andorinha nos céus de Lisboa. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

segunda-feira, 9 de maio de 2016

segunda-feira, 2 de maio de 2016

No cemitério




Sem cristos crucificados nem anjos de asas abertas.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Uma casa


Há pequenos pedaços de vida, lá atrás, que nos fazem sorrir. A primeira (?) casa que ousei querer comprar, era uma palafita à beira Tejo. Mais tarde foi objecto de uma brincadeira com direito a caricatura e oferecida pela nossa Coqueluxe, em que eu ostentava várias peculiaridades levadas ao exagero: o gosto pelos vestidos indianos, os brincos grandes, os colares, sapatos para várias ocasiões, dois pares de óculos (para os esquecimentos) e muitos isqueiros. Tudo isto e uma palafita.